segunda-feira, 21 de novembro de 2016

O que eu aprendi quando quebrei o pé

A primeira coisa que eu aprendi é que os ferimentos mais graves acontecem por um triz. Fui educada: eu queria dizer que essas coisas acontecem por uma idiotice mesmo. Imagine você que eu, aos catorze anos, fui atropelada pela porta traseira de um caminhão baú, sendo arremessada a uma distância de cerca de quatro metros à minha frente, e de tudo isso apenas resultaram um arranhão no joelho, outro na mão esquerda que segurava o caderno e também um galo na parte da cabeça que foi acertada pela porta. Imagine também que, viajando de madrugada, meu tio cochilou ao volante e nós capotamos o carro em uma das curvas mais perigosas da estrada de Vitória da Conquista a Itabuna, mas desse acontecimento eu só herdei alguns hematomas espalhados pelo corpo e uma história de carona em um camburão para contar. Enfim, eu me considerava um “vaso ruim”, sabe? Mas o danado do pé quebrou fácil. Bastou um tropeço na bainha improvisada de uma calça bem folgadinha. Não me peça detalhes. Foi tudo muito rápido e idiota. Dá até vergonha de contar. Então vamos logo ao que mais eu aprendi com isso, certo?

Eu aprendi que resisto muito bem à dor. Sempre fui a “dengosa”, a “toda frágil”, a que “adoece fácil” e o tempo todo. Mas eu te digo que por dez dias todo mundo duvidava de que eu tinha fraturado o pé. É que tudo isso aconteceu em um sábado à noite, quando eu voltava de um filminho com os colegas do trabalho. Desci do carro e tropecei. Quando acordei, escrevi para uma amiga: acho que quebrei o pé. Ela respondeu: “você consegue pisar no chão? Está andando? Então não quebrou nada, não”. Mas ela foi me visitar e insistiu pra que eu chamasse um táxi para irmos à UPA, único centro de saúde que teria atendimento médico em dia de domingo aqui no interior. Eu senti que seria em vão. Não aceitei. Bati o pé que não iria. Quer dizer, não bati, não. Só fiquei de molho em casa, passando óleos essenciais no pé inchado. Ela compreendeu. E fez brigadeiro.

Passei a semana pisando com o calcanhar, usando adesivos analgésicos, saindo só de chinelo e dizendo a Deus e o mundo que aquilo foi só uma contusão e que logo ficaria boa. Ledo engano... Uma semana depois, o pé voltou a inchar. Estava rôxo. E o passo de calcanhar já estava incomodando mais do que a suposta contusão. Aceitei que precisava ajuda médica. Mas era domingo de novo. Respirei fundo. Na segunda, peguei a moto e fui à UPA. A médica repetiu aquela fala da minha amiga ali em cima. E disse que só o ortopedista poderia avaliar, com a ajuda de uma radiografia. Por sorte, aquele era o dia em que esse especialista atendia no hospital. Ele olhou a radiografia e pediu pra tocar no local da dor. Mas ele tocou nos lugares errados. Quando eu mostrei onde doía, o (infeliz do) médico cravou o polegar opositor com toda a sua suspeita e sagacidade no ponto exato e eu gritei instintivamente contra o (agressor) doutor.

Ele (bravo): está quebrado!
Eu (olhos arregalados): o quê?
Ele: faz dez dias que você está com o pé quebrado. Aproveita e vai pra perto da sua família porque serão 45 dias sem trabalhar, sem poder fazer nada.
Eu: de jeito nenhum! Não vou ficar nem por um dia sem trabalhar!

Guardei o atestado e a radiografia e saí aos pulos da sala onde o enfermeiro imobilizou minha perna com uma tala. Um rapaz que estava na fila de espera ofereceu o ombro pra me ajudar a sair do hospital. Aí expliquei que a moto estava do lado de fora, que eu não aguentaria seguir até lá daquele jeito e perguntei se ele poderia trazê-la pra mim.

Eu: você sabe ligar as motos da Suzuki? Gire a chave para a direita, depois puxe o freio esquerdo e aperte o botão de partida com o dedão direito.
Ele: mas eu tô com o dedão engressado! Vou chamar o cara que tá só com o ombro deslocado pra apertar esse tal botão aí...

E lá foram eles, tentando não esquecer a ordem dos procedimentos. E logo ele voltou, pilotando com uma mão só, todo sorridente com a praticidade daquela moto sem embreagem. Foi quando percebi que atrás de mim havia uma plateia descrente de que eu poderia pilotar com o pé daquele jeito. Tentei montar enquanto duas pessoas seguravam a moto à minha frente, mas pela direita não tinha jeito. Dei a volta por trás, aos pulos, apoiei a perna imobilizada no local seguro e acelerei. Aí a plateia virou torcida organizada! Até palmas ganhei! Virei celebridade por 15 segundos.

 Tentando permanecer fashion

Chegando em casa, ainda precisava subir as escadas. Fui de bundinha, degrau a degrau. Depois aos pulos até a cama. Cadê fôlego? Não demorei em encontrá-lo treinando andar com muletas. Ôh troço que cansa! Assim mesmo, remendada, trabalhei durante uma semana, preparei café da manhã e lanchinho da tarde e até fui à feirinha de São Félix do Coribe na sexta à noite.

Pronta para trabalhar

Sexta à noite e eu pronta pra ir à feira, quer dizer, ir ao "shopping"

Mas logo veio a terceira coisa que aprendi: sou muito arrogante. Afrontei o médico, guardei o atestado, lutei contra as limitações, mas não tinha jeito de conter o inchaço e as dores que não fosse o repouso. Eu precisava deixar o tempo cuidar do trauma naquele bendito quinto metatarso esquerdo. Fui muito bem cuidada pela amiga que me acolheu nesse período difícil. Tive comidinha preparada pela sogra dela todos os dias. Tive sua companhia para o café, prosa boa e compreensão para minha teimosia.

Mas quando precisei retornar ao médico, quem disse que consegui entrar na cota do dia? É que aqui não há estabelecimento que aceite plano de saúde e o médico do SUS sentenciou uma cota de atendimentos para aquela tarde. Eu, que não queria dar trabalho a ninguém, tive que pedir ajuda para ser atendida fora da cidade. Impossível acionar minha avó. Aos 80 anos, eu seria um fardo e uma preocupação para ela naquele estado. Então aceitei o convite para ir para o sul. Passei a noite em um ônibus leito, dez minutos em um Uber e duas horas em um avião. Do outro lado do corredor, viajava Divaldo Franco. Quanta paz esse ser humano emana, meu povo! Do aeroporto, fui para uma clínica. Atendimento rápido e simpático. O que um bom plano de saúde não faz?... Nova radiografia, ossinho resistindo a consolidar. Ganhei um gesso de verdade.

No banho, administrando o peso do gesso e a impossibilidade de caber a mim e a uma cadeira no banheiro de um apartamento, acabei escorregando e levando uma grande uma queda. Levantei, me vesti, fiz cara de tudo bem, mas bastou um espirro para sentir que a costela estava com problemas. Tentando disfarçar, soltei uma gargalhada e foi aí que a coisa ficou feia. Me calei a esse respeito por uns dias, mas foi preciso fazer nova visita à clínica, nova radiografia e então usar uma faixa atada ao peito. Havia uma mancha cinza enorme no pulmão. Tinha que repousar e tomar anti-inflamatórios. Céus! Eu era praticamente uma múmia viva!

Descobri que repousar cansa. Fiquei estressada. Mas teve almoço de domingo em família. E teve a chance de ver uma turma legal andar a cavalo. E acabei em cima do cavalo também. Explico: era um local onde aprendizes e profissionais treinavam, então até crianças montavam nos seus cavalos no redondel enquanto os laçadores treinavam na pista (não sei como se chama o local de treino de laço). E lá fui eu, temendo a altura, mas adorando o balanço suave do cavalo e o ventinho no rosto. Foi só uma voltinha de leve, com uma pessoa mais experiente segurando a rédea. Acho que é esse o nome. Fiz carinhos no cavalo e ele gostou de mim. Sempre que “Boneco” voltava ao local onde eu estava sentada, se aproximava querendo denguinho. E eu já não gosto, né? Rsrsrsrs

Medrosa

Feliz

Enfim, aprendi que estar convalescente é uma forma que Deus encontra pra nos ensinar como é bom estar em família. Fui muito mimada por todos. Me senti muito amada por todos. E também percebi na minha limitação uma forma de estimular a gentileza nas pessoas: ganhei visitas e chocolates e muitos pães caseiros (amo!), ganhei jantar especial dos vizinhos, recebi tratamento cuidadoso da empresa de ônibus, do motorista do Uber e da cia aérea durante a viagem, tive preferência quando precisei atravessar a rua com as muletas para ir ao médico, tive direito a cadeira motorizada no supermercado (essa parte foi incrível de boa!).

Desculpa, Chloé, mas esse meme é tão legal que fiz minha versão cadeirante


E entendi que não sou nem um pouco autossuficiente. Eu, que saí de casa tão cedo e que há tempos moro sozinha e longe da família, precisei me deixar ser cuidada. Percebi que, mesmo nos períodos em que dividi a casa com amigas ou colegas, sempre coloquei a autonomia à frente de todas as relações. Aquele era o momento de me adaptar em todos os sentidos a uma nova condição. Precisei me recolher para compreender o que a vida queria me ensinar.





Então aprendi que não dá pra viver sem esse tipo de afeto. É um afeto que brota do trabalho que a gente dá ou dedica ao outro. Isso é ser família. O problema é que fiquei mal acostumada. É muito bom quando alguém cozinha pra você sem ter dinheiro envolvido. Quando alguém lava (e lê o que está escrito nas) suas camisetas porque você não deve se esforçar sequer para cuidar das coisas cotidianas. Quando alguém abre a porta do carro pra você e põe a mão no seu coração se precisar frear o carro repentinamente. Foi lindo descobrir que as pessoas se sentem felizes por terem a simples oportunidade de ajudar ou agradar alguém.

Estou grata ao universo por tudo que aconteceu em agosto de 2016. Deu desgosto na hora da dor, mas a “primavera” da compreensão chegou em muito boa hora. Agora quero fazer de tudo para ficar mais perto da família. Retiro a autonomia do centro de minha vida e nele coloco em definitivo esse amor que demorei tanto a conhecer. Quero amar em abundância e me permitir ser amada todos os dias.

E eu torço para que você, que leu tudo isso, possa saber dessa “verdade do espírito” sem ter que tropeçar na vida como eu. Que o amor esteja em seu coração e frutifique em abundância!

2 comentários:

  1. WOW!!!
    Não imaginei que tivesse sido tãaaaaaooo [não encontro o adjetivo]!!!
    Que lindo você poder contabilizar o aprendizado, e repartir conosco.
    Obrigada, amiga querida!!! <3

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    1. Sim, Bel, foi muitoooo ( não sei que adjetivo também) e sou eu quem fica agradecida e agraciada quando as palavras brotam e frutificam sentimentos a compartilhar com o mundo. Beijos, querida!

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